12 de julho de 2022

Faz hoje seis anos

 


Faz hoje seis anos que partiste deste plano. 

Mulher incrível, a alma mais alegre que conheço, força anímica sem igual, coragem sem par. Indomável, dócil, livre, mandona e de sorriso e riso sempre prontos. A tua vida não foi fácil ou particularmente feliz com o avô, mas nunca te deixaste invadir pela tristeza profunda. Deste largas ao desespero, sim. Aproveitaste-te da inocência e idade infante da minha mãe para descarregar a tua frustração, sim. Já que não podias ser feliz, ninguém naquela casa o seria. Resmungavas, ralhavas, davas os berros os que tinhas a dar e, lutadora, fugias com o teu azedume para a Terra, o teu jardim encantando, a tua horta mágica, o teu pomar secreto. E no meio dos afazeres mil que tinhas a teu cargo, todas as tarefas árduas de uma quinta, desde cavar batatas, regar o milho, até tratar dos animais, a tua alma libertava-se do veneno a cada dia, e esvoaçava por entre as dálias, as oliveiras, os pinheiros e as mimoseiras. Mais tarde a revolta contra a vida que te tinha calhado com o homem que escolheste abrandou. Talvez porque tenhas aceitado e te tenhas resignado. Mas jamais sem refilar sempre que a situação to permitia. Julgo que a tua maior mágoa residia no facto de teres confiado no amor. Tiveste pretendentes com mais dinheiro, com mais juízo, com mais condições para te fazer feliz. Mas apaixonaste-te pelo avô. A sua beleza tímida cativou-te. E seguiste o teu coração, para te calhar um marido que se tornou alcoólatra, mas que, diga-se, nunca foi violento nem agressivo. Gastador, desalmado, irresponsável e estouvado. A pessoa mais séria e trabalhadora deste mundo quando sóbrio, tornava-se a alma da festa quando ébrio, cantava, disparatava e desatinava, entristecendo-te e envergonhando-te.

Quando vim fazer parte da tua vida tudo isso era já facto assente e aceite. As recordações que vivem em mim não têm fim. Desde as idas para a ribeira de manhã cedo com a merenda aviada, às vezes com burricada. A felicidade e a alegria com que nos recebias quando chegávamos e as lágrimas que começavam a acontecer três dias antes de partirmos. A alegria com que vivíamos os três meses de férias de verão, a semana da Páscoa e do Natal. Desde o pormenor dos nós que usavas para atar os fardos de palha, ao cheiro da roupa lavada no tanque de pedra do poço grande com sabão azul e branco, seca ao sol e ao vento no cimo da pedreira. O verde dos teus olhos. As histórias que me contaste e que me enchiam de mistério e deslumbramento, passadas para ti pelo teu pai, (o adorado avô João da minha mãe), vindas da sua avó Belizandra. O sabor dos dias de verão na tua companhia, que pareciam que iam durar para sempre (creio que até tu acreditavas nisso). Cantavas frequentemente com o teu timbre característico e de que tanto te orgulhavas: a plenos pulmões quando estavas na Terra, imersa nos duros afazeres agrícolas, e em tom moderado se em casa, a amassar o pão ou os bolos, ou a diligenciar os magníficos almoços, lanches e jantares que nos fazias, sempre opíparos e tão saborosos, tudo feito sem regras, sempre a olho, sem receitas, apenas com o mistério de quem conhece e maneja a cozinha e os ingredientes com uma mestria despreocupada. Passei verões intermináveis e inesquecíveis contigo, os melhores da minha vida. Nada se lhes pode jamais comparar. Fomos tão felizes tu e eu!! Fomos todos tão felizes. Tivemos a sorte de sermos completamente felizes em determinados momentos da nossa vida. E isso é o mais importante. E é isso que importa que fique registado na Memória da Natureza. O que veio depois, a vida a acontecer com as típicas teias e tramas a trilhar caminhos, trouxe-nos muitas vezes dissabores (para usar um eufemismo). E o tempo que passou tão rápido (algo que me custa a aceitar). E quando os momentos mais cinzentos se acercaram, fui (e vou) muitas vezes buscar ânimo àqueles momentos gloriosos. Têm esse poder. Espero que também tu tenhas recolhido o seu néctar reparador sempre que a tua vida tenha apertado.

Há seis anos partiste deste plano.

Mas eu guardo-te intacta numa bolha temporal onde o tempo não passa. Mantenho esse momento espácio-temporal na minha mente desde que partiste. O espaço é a Terra no seu auge. E tu feliz, nela. Eternas, as duas. É sempre verão. Vou ter contigo muitas vezes. Andas embrenhada por entre as flores a cantarolar ou estás sentada à soleira da porta da casa, a escolher feijão ou grão. Falamos de tudo, rimos, contamos histórias, cantamos, arranjamos o feijão verde para a sopa do jantar, cortamos as maçãs, as batatas e as couves para dar aos bichos. Às vezes a minha mãe também vai e ficamos as três a conversar e a rir até ao sol pôr, envoltas na temperatura doce e quente, o céu em tons laranja, o aroma de ervilhas de cheiro e amor a fluir das almas unidas para além dos laços de sangue. Vamos buscar os ovos, e dar água e ordenhar as cabrinhas. Ris-te muito porque eu continuo doida por cabritinhos e encho-os de beijos e abraços.

Sim, fiz um buraco no tempo e no espaço só para nós. Desenhei uma singularidade e o universo quântico teve que aceitar. Para que serve a mente e a magia do amor se não para estes pequenos milagres? Temos um mundo entre os mundos só para nós. Quando tenho saudades, quando medito, quando preciso. Estarás sempre comigo até ao dia em que chegar a minha vez de partir. Sei que vais estar à minha espera desse lado de braços abertos e alegria contagiante, como sempre. Com o Leão ao teu lado.

Hoje levo sumo de maçã e bolo de erva doce para comermos as três.
Hoje ficamos a falar até tarde.